3. MATERIA MEDICA

Através de Hipócrates chegou até nossos dias o maior monumento escrito da Medicina de todos os tempos, o Corpus Hippocraticum. Nestes escritos evidencia-se muito claramente a intenção de descobrir os mistérios da natureza, por uma observação imparcial e um conhecimento racional dos fenômenos. Essa postura, os hipocráticos a herdaram dos primeiros filósofos jônicos, indo além e formulando o conceito de natureza humana, que teriam como corolário imediato a individualização do ser humano, traço marcante da conduta hipocrática, considerando sempre o doente e não a doença, e tomando-o invariavelmente como um todo. Atuando como tradutor para nobres, em diferentes regiões, Hahnemann conheceu esses antigos conceitos e percebeu que faziam sentido. Portanto, Hahnemann acreditava que os sintomas específicos de uma pessoa, suas reações particulares a uma doença e as forças sanadoras próprias de cada pessoa eram importantes para o diagnóstico e a eleição da terapia. Na sua tentativa de curar as doenças, a força vital faz com que o corpo produza sintomas. O conjunto desses sintomas é chamado quadro sintomático. Estes sintomas não só refletem o que se passa no interior, como também indicam qual a ajuda externa ou energia adicional é necessária. O homeopata primeiro obtém um relato detalhado de todos os sintomas, sinais e outras características únicas, tanto físicas quanto mentais, da pessoa enferma. Em seguida, examina as descrições dos perfis dos remédios detalhados nos livros de homeopatia, chamados de Materia Medica. Uma vez testados, os remédios podem ser usados para sempre, não entrando ou saindo de moda. Quase todos os cem remédios originais de Hahnemann são hoje constantemente usados. A descrição pormenorizada dos remédios consta dos grandes volumes da Matéria Médica. Conhecendo a Matéria Médica, o homeopata está preparado para comparar os sintomas da pessoa com o quadro sintomático do remédio. A isto se chama encontrar o similimum, ou semelhante. Alguns remédios homeopáticos são remédios que se tornaram tão conhecidos que são indicados para uso no estojo de primeiros socorros.

Dinamização: diluição e a sucussão

A princípio, Hahnemann usava a dose normal, mas teve o mesmo problema que abominava na prática convencional. Muitos dos medicamentos eram tóxicos e causavam efeitos colaterais nocivos. Começou então a diluir os medicamentos, administrando-os em doses cada vez menores. Ao contrário do que ele supôs – que, se reduzisse a dosagem dos medicamentos, eles se tornariam menos eficazes – descobriu que se fossem dados de acordo com o padrão de sintomas encontrados nas experimentações, eram mais eficazes e seu efeito mais duradouro. Essas observações de Hahnemann evidenciaram que as doses curativas eram sempre muito menores que as doses que haviam produzido sintomas semelhantes durante seus ensaios em um homem são. Hahnemann começou a usar a “sucussão”, ou seja, a agitar as diluições enquanto eram feitas. Por mais estranho que pareça atualmente, na época era uma prática comum – os alquimistas frequentemente sacudiam, mexiam e realizavam várias outras manipulações nas soluções a fim de ativar a “força vital” da solução. Embora sua intenção original tenha sido reduzir os efeitos tóxicos dos medicamentos, Hahnemann afirmou que o processo de sucussão entre cada diluição tornava os remédios mais ativos e específicos aos indivíduos sensíveis a eles. Quando preparados dessa maneira, que Hahnemann chamava de “dinamização”, a eficácia do medicamento dependia ainda mais da adequação detalhada do quadro sintomático do teste ao quadro sintomático único do paciente. Quando esses quadros eram criteriosamente combinados, de acordo com Hahnemann, essas ”dinamizações” estimulavam a reação e autocura e os pacientes se “curavam” da doença. O processo de dinamização, isto é, a liberação da energia dinâmica nos medicamentos por intermédio de vibração molecular (sucussão ou trituração) é do fim do século XVII, antes do aparecimento da primeira edição do “Organon”, em 1810. Um cientista no início do século XX, Albert Robin, em 1905, escreveu: “O medicamento não age pela sua massa e sim pelo seu dinamismo”. O processo de elaborar os remédios é muito preciso. As substâncias solúveis, como os extratos vegetais e animais, se dissolvem em uma solução de álcool e água destilada, de acordo com a substância. Essa mistura se guarda em um recipiente hermético e é agitado conforme a técnica descrita por Hahnemann. No caso de substâncias insolúveis, como os metais, primeiro são triturados, geralmente usando um facilitador neutro como a lactose, até chegar a um pó fino e segue-se o mesmo processo. Depois se filtra a mistura. Ao líquido resultante dá-se o nome de tintura mãe. A tintura mãe é usada, então, para produzir as diferentes potências que constituem os remédios homeopáticos. Portanto, DINAMIZAÇÃO é resultante do processo de diluições e/ou triturações sucessivas do produto seguidas de sucussões. POTÊNCIA é a indicação quantitativa do número de dinamizações necessárias para a obtenção do medicamento homeopático. E SUCUSSÃO consiste no movimento vigoroso e ritmado do frasco contendo a solução dissolvida.

A FORÇA VITAL E O SISTEMA IMUNITÁRIO

O sistema imunitário, conjunto de mecanismos de defesa e cura do nosso corpo, é altamente competente e controlado, realizando suas funções sem comprometer o resto do organismo. No entanto, muitas doenças autoimunes, síndromes de imunodepressão e câncer, podem ser o resultado de desordens no sistema imunitário, onde a ação desse determina de maneira decisiva o prognóstico do paciente e uma resposta imunitária inadequada ou insuficiente podem significar a perda da luta do organismo contra a doença. Nestes casos, porque não o reabilitar e estimular a realizar a sua função, guiando-o para a eliminação da doença? Ao contrário das drogas utilizadas pela medicina alopática, que atuam diretamente sobre os processos fisiológicos relacionados com os sintomas da doença, os medicamentos homeopáticos promovem a melhora do estado geral de saúde do indivíduo, estimulando seu sistema imunitário a desencadear respostas adequadas para cada situação. Assim, o tratamento homeopático permite ao indivíduo restabelecer a saúde e prevenir a doença sem, no entanto, produzir os efeitos colaterais experimentados por muitos dos tratamentos convencionais. É fundamental a incrível adaptabilidade e inteligência do sistema imunitário, que nos mantem saudáveis, apesar das consideráveis adversidades e Hahnemann chamou de “força vital” a esta inteligência, descrevendo-a como “a força de tipo espiritual que reina em suprema soberania”. É importante ressaltar que foi percebida e aceita a existência dessa força que trabalha para nos manter o mais saudável possível, antes de conhecermos as células e moléculas que compõem o sistema imunitário. Ao longo de sua história evolutiva, os animais multicelulares têm sido infectados por microrganismos. Em reposta, desenvolveram uma série de defesas que são usadas atualmente. Barreiras físicas e químicas, como a pele e superfícies mucosas, limitam os microrganismos às superfícies externas do corpo e, quando os patógenos conseguem romper essas barreiras, são geralmente destruídos pelo sistema imunitário. Graças a esse sistema, os animais possuem a capacidade de resistir a quase todos os tipos de microrganismos ou toxinas que tendem a danificar os tecidos e órgãos e ainda, frequentemente, nos proteger de infecções e de células modificadas, como as cancerosas. Atualmente todos conhecemos esse sistema que é composto de numerosos tipos de células e uma variedade de moléculas as quais estão espalhadas em todo nosso corpo.

Homeopatia no Brasil

A homeopatia foi introduzida no Brasil por um discípulo francês de Hahnemann, Benoit-Jules Mure, que aqui chegou em 1840. Seu primeiro discípulo no Brasil foi o médico português João Vicente Martins que propagou a Homeopatia no norte e nordeste brasileiro. A homeopatia rapidamente se propagou no Brasil e no final do século XIX foi abraçada pelo movimento positivista brasileiro através de seus adeptos do Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro. Disso resultou um grande apoio oficial do governo republicano à Homeopatia, reconhecendo o seu ensino e a sua prática e criando enfermarias no Hospital Central do Exército e no Hospital da Marinha. A Homeopatia no Brasil mantém sua força e seu crescimento até o final da década de vinte, quando começa lentamente o seu declínio, talvez devido ao advento da era da terapêutica química na Medicina, o aparecimento de armas terapêuticas como as sulfas no início e os antibióticos depois.

No século passado, desejando legalizar definitivamente a situação da Escola Homeopática do Brasil, o Conselho Federal de Medicina, o órgão oficial da Medicina brasileira, reconheceu a Homeopatia como uma especialidade médica pela portaria n° 1000 de 1980, quando deixou de ser considerada terapia alternativa, para se tornar, como em outros países, uma forma terapêutica oficial. Ainda em 1988 a Associação Médica Homeopática Brasileira ganhou assento no Conselho de Especialidades da AMB, instituindo-se a prova de Título de Especialista em Homeopatia pelo convênio CFM – AMB – AMHB a partir de 1990. As Resoluções do CFM nos 1.295/89, 1.441/94, 1.634/02,1.659/03 e 1.666/03 confirmam a Homeopatia como especialidade médica. Em 1996 completou 200 anos de existência e é rigorosamente uma ciência médica, uma revolução na medicina convencional e na arte de curar.